A Aposta -22

Dei um vacilo e ela se afastou, correndo. Gabriela chorava muito, ela apenas pegou sua bolsa, e foi embora.

Eu nunca havia gritado, ou quase batido em uma mulher. Nunca me descontrolei dessa forma. Destruí a sala inteira com essa raiva que ainda percorria meu corpo. A raiva dela, e a raiva de minha ridícula inocência.

Fiquei sentado no sofá, olhando pro nada e pensando. Acabei me distraindo e ouvi meu celular tocar. Olhei no visor contra minha vontade, mas era só Eduard. Atendi na hora:

-Fala ai. –Suspirei, voltando ao meu tom normal.

-E ai cara.. Acho que não é preciso nem eu perguntar se está tudo bem, não é?

-É, cara.. As coisas tão complicadas.

-Eu não sei o que aconteceu e nem quero me meter, mas velho, se resolve. Eu vejo o jeito que você olha pra ela, vocês conversam.. Ela chegou em casa aos prantos, cara. Eu nunca vi minha irmã desse jeito. Eu não to defendendo ela, não, eu sei das merdas que minha irmã fez e faz, ta ligado? Eu sei que ela não é nem santa. Ou chega perto disso. Mas po.. ela tava tão bem, sabe? Eu amo ela, e gosto muito de ti, irmão. Não deixa ela ir embora dessa forma..

-Ir embora? Ir embora pra onde, irmão? –perguntei afobado.

-Ela agora saiu de novo, não sei pra onde. Mas eu sei que ela vai pra Flórida com minha mae, minha mãe já esta no aeroporto desde quando ela foi pra faculdade, te procurar. Depois voltou pra cá, arrumou as coisas, e saiu. Mas ela não disse pra onde ia não, cara. E minha mãe ligou avisando que ela não ta no aeroporto ainda e o voo delas sai daqui a pouco. To preocupado, cara.

-Céus. –Apoiei minha mão na cabeça, e suspirei.

Não acredito que terei que fazer isso.

-Certo, eu vou procurá-la, ta, Eduard? Qualquer noticia dela, você me avisa.

-Tu também, irmão. Valeu mesmo.

Desliguei o telefone, peguei minhas chaves e corri pra garagem do prédio.

Essa garota estava me levando a loucura.

Fui passando em cada rua conhecida perto com o carro devagarzinho. Até ouvi uma voz conhecida gritar por ´´socorro´´.

Parei o carro mais atrás da rua onde ouvi, e fui me aproximando aos poucos.

Quando vi, o mesmo cara da lanchonete, tentando agarrar Gabriela a força em um canto da rua.

-Me solta, pelo amor de Deus, me solta. –Ela se debatia, virando o rosto.

-Ah, dentro da lanchonete você ficou cheia de confiança, não é, gracinha? E agora não quer? Pois fique sabendo que eu não gosto de garotinhas mal criadas…
Eu deveria deixar. Deveria. Por castigo mesmo.

-Se não gosta de garotinha mal criada, por que não solta ela? –Eu gritei, me aproximando devagarzinho dos dois.

-Ah, porque eu consigo educar elas, não é mesmo meu bem? –Ele segurou ela com mais força, e Gabriela não desfocou sem olhar de mim.

-Eu falei pra você soltar ela, cara.

-Por que eu faria isso? Também quer dividir a novinha, não é?

-Ela é minha. –Eu disse, ficando bem perto dos dois.

-Opa, acho que tenho concorrência, pelo visto. –O garoto soltou Gabriela, e ela continuou ali, parada, tremendo e me olhando.

-Vai pro carro, Gabriela.

-Não. –Ela disse séria e com raiva, me olhando.

-Eu mandei você ir pro carro, Gabriela. –Olhei bem pra ela, travando os dentes.

Ela apenas saiu correndo dali e virou a esquina onde eu havia parado o carro.

-Bem.. Acho que podemos resolver isso, não podemos? –O babaca disse, recuando.

-Não se preocupe porque eu não bato nos fracos. Eu tenho PENA deles. –Falei, brandindo –Se você
voltar a encostar UM DEDO nessa garota, eu acabo com a sua raça. E não vou ser tão bonzinho
quanto dessa vez.

Dei as costas a ele, e voltei pro carro.

Olhei pelo vidro do parabrisas e pude ver Gabriela lá dentro, um pouco mais calma –pelo menos não estava chorando-.

-O que você estava pensando? –Eu disse assim que entrei, antes de ligar o motor.

-Eu só entrei lá pra tomar um café e ir pro aeroporto. Eu juro. Ele me viu chorando e veio com um
papo de que podia me ajudar e essas coisas. –Ela deu de ombros, fitando a rua. –Você pode me deixar no aeroporto?

-Você tem noção do que poderia ter acontecido se eu não tivesse chegado a tempo?

Liguei o carro, e voltei a estrada, assim que Gabriela assentiu.

-Eu não quero te dar nenhum sermão não, Gabriela. Não sou ninguém pra isso. Só queria te deixar alerta de que não são todos os caras que são iguais a mim. Que perdoam, que levam na boa. Imagina se é um cara daqueles que você tivesse conhecido no bar? No meu lugar?

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