A Aposta – 4

Naquela hora Gabriela olhou pra mim sem hesitar. Digo, parece que ela entrou em mim com aquele olhar que fora tão penetrante. Riu, franziu o cenho e voltou a ler o jornal. 
-A não ser que queira mandar o acordo das quatro paredes. Não vou me importar de relembrar noite passada.
E aquilo era tudo o que eu precisava ouvir pelo resto do meu sábado. 
-Quando e onde você quiser. –Eu disse com um sorriso maroto e ela apenas olhou pra mim, e para meus lábios, sorrindo. 
Foi quando ela fez o que eu menos esperava. Foi jogando seu corpo –por cima da mesa mesmo –pro meu lado, e aproximando nossos lábios. Gabriela me deu uma ultima olhada e logo após, fez o que eu tanto esperava; grudou nossos lábios em um longo e delicado beijo. 

-Tem problema se você me levar pro meu irmão depois do almoço? 
-Não, claro que não. –Respondi, colocando as xícaras na pia. 
-É porque ele provavelmente vai estar com uma garotinha indesejada. 
Ri com o “garotinha indesejada”. Como se ela já fosse uma adulta, mas né. 
-Sem problema. –Dei de ombros, guardando as coisas. –Mas vamos ter que almoçar na rua. Problema? 
-Não, pra mim tanto faz.
Gabriela se recostou no sofá da sala, e eu passei por ela, avisando: 
-Vou lá pra cima arrumar minhas coisas, e resolver outras pra faculdade. Qualquer coisa, se precisar de algum remédio.. 
-Tudo bem, to bem. 
Notei que ela estava se sentindo deslocada. Com vergonha. 
Mas não era culpa minha isso tudo. 
Bem, não tecnicamente.. né?
Subi, arrumei a cama, minhas coisas, preparei uns questionários pras minhas provas e fiquei fazendo umas pesquisas no computador.
Quando comecei a ouvir que estava tocando Forever Halloween na sala. Não pode ser. 
Fui devagarzinho pra sala e quando chego vejo Gabriela ainda deitada, e reparei que seu celular que devia estar usando o dispositivo pra reproduzir as músicas dele na TV. 
-The Maine? –Eu cheguei na sala incrédulo. 
Eu já conheci garotas hippies, rappers e de todos os estilos musicais possíveis e foi somente uma, em toda minha vida que também curtia The Maine, uma ex minha. E agora, Gabriela.. Caralh*.
-Oi? –Gabriela riu parando a música. –Perdão, não ouvi 
-VOCE CURTE THE MAINE! –Eu afirmei, coçando minha nuca –Caralho!
-É? –Ela riu, sem graça. -Que diabos tem isso? 
-Eu adoro esses caras! –Comecei a rir, sacudindo ela –Jesus! Eu comprei dois ingressos mês passado pro show que eles vão fazer aqui.. mas não tava arrumando um amigo pra ir comigo! 
-SERIO? Meu Deus! O problema é que meus pais não deixam eu ir no show nem morta. 
-EU VOU FAZER ELES DEIXAREM! Preciso ir nesse show, cara.
-Vamos fazer um trato. –Ela me olhou com aquele olhar malicioso e um arrepio passou pelo meu corpo. 
– Outro trato, garota?
-Mas é pra algo que você quer, senão.. 
-Ta bem, Gabriela. Que trato? –Cruzei meus braços de frente a ela e Gabriela veio em minha direção, deslizando seu dedo em meu braço 
-Então.. Eu preciso te apresentar aos meus pais. Como namorado. –Assenti, fazendo sinal pra que ela continuasse. –Eu vou convencer eles a ir a esse show SE você for num jantar em família comigo, e eu te apresento e fim.
-Mas e depois, Gabriela? Você vai chegar do nada e dizer que terminamos?
-É. –Ela deu de ombros.
Com certeza Gabriela já deveria ter dito isso muitas vezes para seus pais e devia estar acostumada.
-Certo. Temos OUTRO trato então, né. 
-Ótimo. –Gabriela e eu ficamos por um tempo nos olhando, quando demos conta que estávamos bem perto um do outro. 
Ela apenas abaixou a cabeça bem sem graça e voltou a se sentar no sofá. 
-Quando é esse jantar? 
-Quando é o show? 
-Bem… É na quarta, a noite. –Cocei a nuca, eu sabia que ela não gostaria muito da ideia. 
-DESSA SEMANA? –Assenti, me sentando de frente a ela, em outro sofá. –Eu to em prova! Como vai ser? 
-Eu posso estudar com você. 
-Estudar? –Ela deu uma risada irônica –Nós dois? Juntos? 
-Na biblioteca, se preferir. 
-É, é bem mais aconselhável. –Nós dois rimos, sem graça. –Certo. Eu falo com meu pai isso também. 
-E que dia vai ser, então? 
-Terça. –Ela deu de ombros e eu fiquei arrepiado por um momento. 
Nunca tive que encarar os pais de minhas namoradas.
Pera aí, eu nunca tive namorada. Porque nunca tive nada sério com ninguém. 
Ah, que ótimo. 
-Certo. Eu tenho uns trabalhos, mas adianto tudo amanhã. É.
-Se precisar de algo que possa te ajudar.. 
Gabriela estava sentada com uma das pernas dobradas, e eu só dei uma olhada pra aquele seu corpo. É, minha recompensa seria mais tarde. Sem dúvida alguma. 
-Então, vamos almoçar logo? Estou faminto. 
-Claro. –Ela deu de ombros, se levantando –Vou só trocar de roupa, ok? 
-Claro. 

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