A Estagiária – 13

Depois que ele colocou o celular em cima da pia, vi que ele estava usando só uma calça de moletom. Ah, que corpinho bonitinho era o daquele menino..
Ele fez o que eu pedi e escolheu um miojo de carne mesmo. 
-Voce vai salvar minha noite, Hanna. 
-Eu sei. -Sorri, satisfeita.
-Entao, me diz.. quando voce aprendeu a cozinhar? Mesmo que miojo?
-Ah, quando resolvi morar sozinha sem saber cozinhar. -gargalhei comigo mesma. 
-Serio? Voce mora sozinha?
-Aham. Meu irmão quis morar em republica, com uns amigos dele.. E eu queria um canto só pra mim. 
-É perto do trabalho?
-Sim, na Xavier Street. 
-Po, pertinho mesmo. Eu ainda to com meus pais, porque sei la.. Eu me acostumei aos mimos desde sempre e nunca tomei decisao nenhuma na minha vida. Eles sempre decidiram tudo pra mim, fizeram tudo pra mim. 
-E isso nao te incomoda?
Percebi que a minha pergunta o incomodou. 
-Nao? Nao. Ué. Nao é algo bom?
-Se voce chama isso de liberdade.. Ei, acho que aquela agua ali está fervendo já! -eu disse ao ouvir o barulho de bolhas e vendo a panela atrás dele. 
-Sim, está. E agora, só colocar o miojo e o molho?
-Nao! Primeiro voce só poe o miojo pra ele cozinhar!
-Ta bom entao. 
Ele fez o que eu disse, pôs só o miojo na panela e voltou a falar: 
-Ein, mas como voce tava dizendo.. Por que seria ruim viver a vida que eu vivo? 
-Nao disse que é ruim sua vida. – dei um sorriso tipo “po, queria eu ser chefe de uma puta empresa!”
-Ah, mas deu a entender que nao é muito legal.. 
-Bem. Qual foi a coisa mais aleatória, sem noçao, diferente, que voce ja fez?
-Hum. – ele parou pra pensar, se encostando num pilastre que tinha na sua cozinha. – Hum.. Trote do colegio, conta?
-Nao.
-E da faculdade?
-Nao. 
-Porra, ai voce me quebra, Hanna. Eu nao costumo fazer coisas fora do comum, sei la. Sou sem graçao. 
-Quando eu morava com meus pais e meu irmao, eu tinha uma vizinha que foi minha melhor amiga ate meus 18, até eu me formar no colegio e mudar de cidade, e tudo mais né. A gente costumava sair em noites bem claras e quentes pra caçar vagalumes. 
-Ah, que radical.. – revirou os olhos, em descrença.
-No quintal dos vizinhos. 
-Voces invadiam casas?
-É. -gargalhei com aquelas lembranças idiotas. – perdi a conta de quantas vezes já disparei o alarme deles.. coitados. 
-Qual o problema de voces?
-Eu sempre fui apaixonada pela noite, sabe? E ela era aquela amiga “topa tudo”, entao.. Era muito irado, ter uma ideia do nada e ter alguem pra fazer aquilo comigo. 
-Gostei. Da proxima vez que voce tiver uma ideia assim, me liga. Serio mesmo. 
-Voce nao tem amigos, ne? 
Nós dois rimos. 
-Eu tenho. Mas eles sao empresários, sao chatos, só sabem falar sobre mulher, emprego, dinheiro.. Nao me satisfaz mais. Sei la. Acho que to precisando de algo novo. 
Quem sabe eu nao seja aquilo que ele procura? 
-Certo. O miojo! – ri, de tao desligados que ficamos. 
-Ja está fervendo.
-Prova um pedaço e ve se já está molinho. 
-Ok. 
Ele fez o que pediu e fez um sinal positivo com a mão. 
-Agora voce tem duas opçoes: ou voce tira a agua e poe o molho, e mistura, e come. Ou voce tira so um pouco da agua e come, como se fosse um caldo, com o molho.

-O que voce faz?

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