Eu não ligo

“Corredor ;)”
Meu celular vibrou com a mensagem de Bruno no meio da aula de Filosofia.
OK, eu não deveria sair, mas ah.. Eu já estava num estado que podia criar a arvore genealógica todinha de Karl Marx e Durkheim. Chega, né.
-Professor. -Levantei a mão, chamando sua atenção e fazendo-o parar de explicar pela milionésima vez, algo sobre Marx. -Posso ir ao banheiro?
-Vai. -Ele respondeu meio insatisfeito.
Hoje todas as turmas do Ensino Médio estavam fazendo simulado, e pra minha sorte, minha turma já havia acabado e estávamos tendo aula normal. É. Aula normal, depois de mais de 60 questões E uma puta redação de argumentação.
A vida nao é justa as vezes.
Mas na hora que eu saí da sala e o vi no final do corredor, quase que escondido atrás dos armários de aluminio, senti que a vida pode não ser justa as vezes, mas tem suas vantagens.
Bruno, no caso, era uma de minhas vantagens.
Fui de fininho até ele, graças a Deus não havia nenhuma supervisora no corredor. Provavelmente, estariam ou lanchando, ou cuidando de alguma turma ainda em prova.
-O que voce quer? -Parei de frente pra ele, de braços cruzados.
-Sei lá. Tava entediado. E aposto que você tava também, né..?
Ele deu aquele sorrisinho. Não teve como eu ficar brava, cara.
Estava fazendo bastante frio hoje, Bruno vestia seu casaco branco, de manga comprida, e parecia que seus olhos estavam até mais castanhos hoje. Eu era capaz de quase ver meu reflexo neles!
Eu estava a praticamente um passo dele, mas já podia sentir o cheiro de seu perfume, de onde estava mesmo. Ah.. eu me sentia hipnotizada só com o cheiro dele.
-Deu sorte, panaca. -Dei um tapinha em seu peito. -Acabamos o simulado, era Marco agora.
-Uhhh, ninguém merece. -Bufou. É. Até filosofia tem seu limite, né. -E então?
-Então o que? -Deixei escapulir um sorriso.
Eu não conseguia parar de sorrir quando perto dele. Preciso parar de fazer isso, está começando a deixar na cara.
Ou não.
Bruno é um idiota, lerdo pra cacete.
Eu poderia escrever na minha testa “quero você” que ele leria, e perguntaria “quero comer? Hã?”. Hunf. Garotos…
-Você vai no aniversário da Fernanda? -Ele perguntou sorrindo, meio sem graça. Seus olhos não desviavam dos meus.
Fernanda era uma de nossas mil e uma pessoas em comum amizade.
-Acho que sim. -Dei de ombros. -Voce?
-Devo ir. Tava pensando em fazer outra parada.. Topa?
-Que parada?
-Sei lá. -Colocou a mão nos bolsos. Bruno estava nervoso, cara. Desde quando ele ficava assim perto de mim? -O que voce tá afim?
-Sei lá. -Dei de ombros. Estava me sentindo ele agora.
Sem ter ideia do que fazer, falar.. E principalmente; com medo de falar besteira.
Suspirei.
Eu não estava mais aguentando aquilo.
Dei um passo pra trás, voltando a ficar na reta do corredor e dei uma olhada. Ninguém por ali, ainda.
-Que foi? -Ele perguntou, franzindo a sobrancelha.
-Vem cá. -Puxei-o pela gola de seu casaco e troquei de posição com ele.
Coloquei-o de frente pro corredor, porém fiquei na sua frente. Assim, ele tinha total visão do corredor/das salas e eu, só dele.
-Giulia..?
-Shh. Avise-me se você ver alguém, ok?
Ele me deu aquela olhada de novo. Com aquele sorriso.
Continuei segurando na gola de seu casaco, na parte de cima, e fui puxando-o devagarzinho em minha direção. Até colar nossos lábios, devagarzinho.
De início, foi só um selinho demorado, mas meu Deus, como foi bom poder finalmente sentir aquela sensação dos seus lábios nos meus..
Mas então, ele logo tratou de colocar suas mãos em minha cintura, por dentro de meu casaco.
-Não! -Afastei-me, rapidamente e tirei as mãos dele de mim, olhando pra trás e vendo se ainda estava tudo vazio. Que sorte.
-Que foi, cara? -Ele franziu o cenho, confuso.
-Se você colocar a mão em mim, quem chegar lá trás, vai logo ver.
-Sem mãos ninguém vê?
-É. Pra quem tá lá trás, é como se eu só tivesse na sua frente. Sacou agora?
-Uau. -Ele assentiu, sorrindo. -Até que você nao é tão burrinha, nao é?
Revirei os olhos.
-To brincando, gatinha.
Bruno levou sua mão rapidamente até minha nuca e me puxou pra outro beijo novamente. Assim que nossos lábios se encostaram, ele tirou a mão dali e ficou segurando a barra de meu casaco, colando aos poucos meu corpo ao dele.
Rapidamente, passei minha mão por sua nuca, só pra curtir mais um pouco nosso beijo.
Sua lingua percorria de levinho os espaços de minha boca e quando se encontrava com a minha, sentia que ele deixava-a juntinha da mesma, parecia que apenas pra aproveitar mais nosso momento.
Não demorou muito até ele “escorregar” a mão em meu casaco até minha cintura de novo.
-Você não se controla, né? -Afastei-me na hora, tirando sua mão de mim, rindo.
-Não tem como.. -Passou a mão em meu cabelo. -Eu esperei tanto por isso..
-Por que não o fez logo?
-Como eu ia saber? Não tenho bola de cristal ainda.
-Voce é tao lerdo. -Revirei os olhos.
-Só quando eu quero. -Ele deu aquele sorriso maroto de novo, beijando-me rapidamente.
-Posso voltar pra sala agora? -Perguntei, mas na verdade, nem eu queria.
-Sei lá. -Bruno deu de ombros, colocando suas mãos no bolso.
Revirei os olhos, mas assim que me virei, ele segurou meu braço e me virou pra ele, me preensando rapidamente na parede e me beijando. Com vontade.
Levei minhas mãos pra sua nuca sem me importar mais com nada, agora estávamos escondidos ao lado do armário, de qualquer forma, então né.
-Alguém pode ver a gente.. -Sussurrei, encostando nossas testas.
-Eu não me import…
-MAS eu me importo de ver voce dormindo em minha aula novamente, Giulia.
Pisquei os olhos com força. Minha mão chega estava dormente.
Eu praticamente dormi, encostada na minha mão. E eu nem lembro disso?!
-Desculpe Marco.
-Vai beber água e lavar o rosto, vai.
-OK.
Suspirei, levantando-me com esforço e saindo da sala.
Essas noites mal dormidas estavam acabando comigo.
Fui praticamente me arrastando até o bebedouro, e quando estava agaixada e bebendo água, senti alguém bagunçar meu cabelo.
-Que? -Virei-me de cara emburrada.
Mas então, vi Bruno atrás de mim, sorrindo que nem um garotinho de 9 anos, quando ganha uma bola de futebol nova.

E então, eu simplesmente sorri de volta.

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