• So ready – Capítulo 3

    • Theo está passando mal, minha irmã presa no trânsito e meu cunhado está viajando. A creche dele fica aqui perto. Mas eu- eu….
      Eu nem esperei ele terminar de falar.
    • vou buscá-lo. Peça pra Anna avisar ao pessoal do colégio que sua amiga vai buscar seu sobrinho.
    • Ayra? – Dimitri me olhou confuso e surpreso ao mesmo tempo.
    • Você precisa ir nessa entrevista, Dimitri. E não vejo problema. Eu busco o Theo e ele fica lá em casa até você sair entrevista e poder buscá-lo. Tudo bem?
      Dimitri não respondeu: apenas deu um sorriso, de orelha a orelha, e ligou para sua irmã.
      Me passou as informações do colégio e do que eu precisaria fazer com o seu sobrinho doente e parti para lá na hora.
      Não pensei nem duas vezes.
      Quando estava quase chegando, comecei a suar frio. Eu nunca tinha cuidado de uma criança na minha vida (não sozinha! E não com ela doente!)
      Que diabos eu estava fazendo?
      Que diabos eu iria fazer?
      Encontrei um Theo bem abatido e sonolento na creche.
      Em contrapartida com o que eu estava acostumada: feliz, saltitante e sempre com uma história boa na ponta dos lábios.

    Conheci o sobrinho de Dimitri já há alguns meses, quando justamente Dimitri precisou cuidar dele para a irmã e o cunhado enquanto nos dois fazíamos trabalhos ou estudávamos pra provas de faculdade. Por isso mesmo que me ofereci sem nem pensar duas vezes para cuidar do garotinho que não teria outra pessoa para buscá-lo.

    Comprei um ursinho de pelúcia pra ele no caminho para ver se animava, mas nem assim ele ficou muito pra cima. Ver um garotinho de 5 anos pra baixo por causa de uma gripe era devastador.
    Passamos na farmácia, comprei alguns remédios que Anna -mãe de Theo- pediu para dá-lo imediatamente e fomos pra minha casa.

    Atualmente eu morava com minha melhor amiga, que estava terminando a faculdade. Morávamos juntas mas mal nos encontrávamos: conforme ela estava fazendo residência (estudava Medicina), eu saia na hora que ela chegava em casa e passava muitas noites sozinhas por conta de plantões dela.
    Fiz uma comida bem simples pra ele (me informaram que ele havia almoçado muito pouco no colégio), então tentei dar alguns legumes amassados e um bom suco de frutas. Theo comeu um pouquinho e logo adormeceu, talvez por conta do remédio de gripe que pediram pra eu dar.
    Em todo esse tempo, Dimitri (e Anna!) me mandavam mensagem desesperados querendo saber cada segundo sobre Theo. Eu me dividi em 3: olhar o theo, responder Dimitri e responder Anna.
    Assim que o garotinho dormiu, tomei um banho rápido, troquei de roupa e sentei para matar umas pendências da faculdade.

    Por volta das 17h da tarde, meu celular começou a tocar. Só percebi que eu tinha dormido pelo susto que tomei. Olhei pro sofá (aonde arrumei Theo para dormir) e graças a Deus ele continuava dormindo como um anjo.

    • oi. – atendi meio grogue o telefone, mas tentando disfarçar a voz de sono, era Dimitri.
    • Ei. Te acordei? Tudo bem?
    • eu tirei um cochilo enquanto Theo esta apagadinho. Tudo bem por aqui. E aí, como foi?
    • To chegando aí e a gente se fala.
    • tá bom.
      Desliguei, fui lavar meu rosto e dar uma ajeitada no cabelo.
      Poucos minutos depois, ouvi o interfone tocar. Atendi rapidinho para não acordar o Theo e pedi para que o porteiro liberasse Dimitri.
      Assim que subiu e deu de cara com Theo dormindo no sofá, abriu um lindo sorriso.
    • Você é demais. – me abraçou e me deu um beijo na bochecha. Um beijo demorado na bochecha.
    • eu sei. – rimos. – eu estava pra fazer um café. Quer?
    • Com certeza.

    Fomos pra cozinha e coloquei a água para ferver e preparar as coisa sobre para fazer o café.

    • como foi lá? Me conta!
      Mas só obtive resposta de Dimitri quando me virei pra ele. Ele estava completamente absorto em seus pensamentos enquanto me olhava separar o pó do café e as coisas.
    • Desculpa. – riu, abaixando a cabeça. – ahn, foi muito bom. Eu estava distraído por causa de Theo, claro, mas contei a eles isso e chegaram até a se mostrar preocupados!
      Claro. Com um currículo que Dimitri tinha… claro que iam beijar os pés dele para que ficasse e aceitasse a proposta.
    • Que bom! E quando você vai ter resposta?
    • Semana que vem. – disse, me olhando. – sexta à tarde. Se for positivo a gente pode comemorar. Só eu e você.
      Parei, olhando-o e sorri.
    • só eu e você. – eu repeti.
      Ficamos conversando mais um pouco até a água ferver e eu colocar no pó de café e na xícara.
    • fiquei bastante surpreso com sua atitude hoje. – Dimitri disse, enquanto tomávamos nosso café. Me sentei de frente pra ele, do outro lado da mesa. Franzi o cenho, não entendendo. – isso já aconteceu antes. Não muito parecido. Mas precisei de alguém para buscar Theo ou levar Theo pra escola, algo assim… te contei… e passou batido.
    • sério?
      Eu definitivamente não lembrava.
    • Sério. Não foi por mal, claro. Talvez você estivesse ocupada com outras coisas… – bebeu seu café, deixando no ar o fim da frase.
      Eu sabia exatamente sobre o que ele estava falando: era dele. Que consumia meu tempo todo, que me consumia o tempo inteiro. Que me fazia não ter tempo nem para pensar em mim mesma.
      Suspirei, nostálgica.
  • So ready – Capítulo 2

    Sexta por conta de umas tarefas da faculdade acabei me distraindo completamente. Eu tinha até esquecido do que tinha combinado com Dimitri! Só me lembrei quando Jonas, nosso amigo em comum, veio puxar papo no intervalo entre uma aula e outra dizendo:

    • Animada pra mais tarde?

    Franzi o cenho por uns segundos. Olhei-o com cara de dúvida, me entregando completamente. Arregalei os olhos. Jonas entendeu tudo.
    -Aham!

    • Você esqueceu, né? Bom eu te dizer para você não ter nenhuma surpresa então: vamos todos juntos ao bar. Vai ser nossa resenha de toda semana.
      Assenti, tentando fingir não estar desapontada. Eu sabia que toda semana depois da aula saíamos e bebíamos algumas cervejas juntos. Mas não esperava que logo essa sexta Dimitri iria querer que nos dois saíssemos (com outras intenções em mente) junto com nossos amigos!
    • Legal.
    • Talvez ele esteja fugindo. – Jonas soltou, arqueando uma sobrancelha. – e você também.
    • eu?
    • Procurou se ocupar tanto com tanta coisa hoje que acabou se esquecendo, no fim das contas. Mas você nunca iria esquecer, de verdade.
      Dei de ombros, fingindo não ligar pro que meu amigo disse. Mas no fundo, sabia. Grandes chances daquilo ser verdade.
    • Oi. – Dimitri disse, sentando ao meu lado no bar.
      Saímos da aula e fomos direto pro bar em que nos encontrávamos toda semana. Um pessoal ficava cantando no karaokê, outro jogando sinuca, outro paquerando… cada um fazendo sua missão. E eu na minha. Sozinha.
      Me afastei um pouco das meninas e fiquei, sentada no balcão, de longe observando todos. Eu gostava desses momentos introspectiva.
    • oi. – eu disse, olhando.
      Pelo jeito que ele chegou ao meu lado, parecia já alterado.
    • tudo bem? Está aqui isolada.
    • só pensando um pouco.
    • acho que não foi uma boa ideia pra nos dois, né? – ele me olhou como se tivesse pedindo desculpas.
      Não respondi, apenas assenti. Dimitri sabia das minhas intenções para com ele, e ainda sim, não quis investir em um tempo pra só nos dois conversarmos sobre.
    • talvez eu estava fugindo. Com medo. Nervoso. – ok, definitivamente bebado. Ele nunca diria essas palavras em sã consciência.
    • nervoso?
    • é. De não saber o que falar, de ficar aquele silêncio… você sabe. – olhou em volta enquanto tomava mais um gole de sua bebida.
      Continuei não respondendo. Só olhei em volta, junto com ele. Vi minhas amigas dançando em um canto e parei para perceber que estava tocando minha musica favorita: fui atrás delas sem falar mais nenhuma palavra pra Dimitri.
      Depois de dançar a noite toda com minhas amigas, decidimos ir embora.
      Dimitri e os garotos nos acompanharam e lembro que ele se despediu com um beijo demorado na minha bochecha.
      Não pude perder a oportunidade para dizer:
      “Quem não está pronto é você” – deixando-o um pouco envergonhado.

    Eu notei que durante a noite ele tentou falar comigo ou tentou dar algum passo. Tentou. Mas não o fez de verdade.
    Enquanto isso vou seguir minha vida como devo.
    Na semana seguinte, marcamos de almoçar todos juntos depois da aula e é claro que Dimitri estava por lá.
    Quieto, parecia nervoso e não estava prestando muita atenção na nossa conversa.

    • tudo bem? – chutei seu pé.
    • tudo bem. – ele sorriu, me olhando.
      Desde aquela noite, passou a sorrir mais e o peguei me observando mais, mas ainda sim… não conversamos mais sobre.
    • fala. – eu disse, pressionando-o enquanto nossos amigos conversavam distraídos.
    • Tenho uma entrevista de emprego. Em uma hora. – disse enquanto comia.
    • que incrível. Por que não comentou nada?
    • estou nervoso. – deu de ombros.
    • vai dar tudo certo, ei. – encostei em sua mão, fazendo-o olhar pra mim.
      De repente seu celular começou a tocar e entre poucas palavras de Dimitri e um olhar assustado, entendi que algo tinha dado muito errado.
    • Que foi? Fala comigo!
  • So ready – capítulo 1

    • Você ainda não está pronta!
      -Estou sim!
      Essa era eu discutindo com Dimitri.
      Eu não era uma mulher “capa de revista”, era um pouco baixinha, magra (até demais, talvez), cabelos loiros e olhos um pouco claros (em um som bem forte juro que da para ver!) mas nunca havia sido dispensada por um cara na minha vida toda.
      22 anos de festas (tudo bem que eu terminei um longo relacionamento há pouco), mas digo, mesmo namorando os caras ainda chegavam em mim.
      Com Dimitri as coisas sempre foram muito as claras: estudávamos juntos – fazíamos algumas aulas juntos – e sempre rolou um clima gigante entre nós dois. Entre os varios términos que tive ao longos dos anos, quase ficamos e teve uma vez que esse quase foi um “quase” por um fio.
      E, de fato, se tivéssemos ficado naquela época… teria estragado tudo o que “temos”. Digo, somos amigos. Muito amigos. Amigos pra cacete. Mas a gente poderia ser mais do que isso.
      Ah, e como poderiamos
      Mas Dimitri cisma que ainda “não estou pronta” para ficar com ninguém. E desde que eu terminei, óbvio que fiquei com uns carinhas. Nada demais, não estou procurando por outro compromisso (nem tão cedo!), mas com ele é diferente.
      Com ele é tudo diferente.
      Tao diferente a ponto de estarmos em meio aula de informática discutindo sobre eu estar pronta para ficar com ele, mas ele achar que não. É bem sério.
    • não me irrite, Ayra. – ele lançou um olhar bravo com seus olhos castanhos e por baixo de algumas ondas que seu cabelo fazia. Até parece que conseguiria ficar irritado de verdade comigo.
    • Vamos só sair, então? Só uma cerveja. Só isso!
    • Por que? – ele me olhou, rindo.
      Ah, ele devia estar amando aquilo. Com certeza.
    • Esquece, Dimitri. Esquece. – virei pra frente, voltando minha atenção a um trabalho que a professora tinha pedido para fazermos.
      Ouvi ele suspirar. E juro que vi um sorriso, de lado.
    • só uma cerveja.
      Sorri, ainda olhando pra tela do computador.
    • só uma cerveja.
      Sorri, ainda olhando pra tela do computador.

    Desde o início da faculdade eu conhecia Dimitri. No início, tínhamos uma vibe mais de dois desconhecidos que queriam se pegar. Agora, e ao longo do tempo conforme nos conhecemos, fomos ficando amigos e deixando um pouco de lado essa coisa toda… mas nunca ficou realmente de lado. Ele era ele.
    E eu o queria.
    Eu sei que não é algo do tipo “one night stand” porque eu realmente o queria. Eu odiava vê-lo falando com outras garotas (e o quanto elas caiam em cima dele!)
    Mas ele nunca retribuía ninguém. Ou melhor, nenhuma.
    Enquanto isso… sempre gostava de jogar piadinhas para cima de mim, sempre conversávamos sobre coisas que você – definitivamente- não conversa com quem é “só seu amigo”, do tipo imaginando se fossemos namorados e se ficássemos.
    Ou seja, tinha algo de diferente entre nós dois. Mas ainda sim, ele não dava o braço a torcer completamente.
    Insistia em dizer que eu “ainda não estava pronta” para ficar com alguém, ficar de verdade. Porque uma coisa sou eu ficar com pessoas aleatória em festas e que nunca mais vou ver… outra é ficar com um cara que eu vejo praticamente todos os dias.
    Talvez seja também para preserva-lo. Dimitri me contou todas as vezes em que se apaixonou e não terminou nada bem.
    Mas será mesmo se não valia a pena arriscar?
    Depois da resposta que me deu, “só uma cerveja”, voltou a prestar atenção a aula. Mesmo olhando para professora, mesmo parecendo 100% atento… eu o pegava me olhando, me observando.
    O que será que devia estar pensando?

    Na hora da saída, continuamos conversando sobre nada demais. Nessa hora, nossos amigos juntaram-se a nos também, ou seja, não iríamos ficar falando sobre nosso suposto “encontro”.

    • Te vejo amanhã, Ayra. A gente se fala. – ele deu uma pequena ênfase no “a gente se fala”, que só eu pude perceber.
    • a gente se fala. – respondi, olhando-o. Meu coração estava acelerado de verdade. Parecia que iria saltar pela boca, até.
      Voltei pra casa, arrumei minhas coisas e quando estava terminando minhas tarefas, meu celular vibrou.
      Sem nem olhar quem era, um sorriso escapou pelos meus lábios.
      Peguei-o e ja vi na tela inicial: Dimitri. Ah, agora sim meu coração havia disparado de verdade.
      “Sexta, depois da aula a noite?”
      Sexta a noite fazíamos uma aula, também juntos.
      “fechado.” – respondi.
      De repente, cai em mim.
      Eu iria sair com ele. Eu iria sair com ele de verdade.
      “É só uma cerveja, ok? Não vá colocar suas esperanças lá em cima. Porque eu sei, é muito fácil se apaixonar por mim!” – Dimitri mandou.
      Sorri, enquanto o respondia.
      “Tarde demais”
      “Será?”
      Será? – eu repeti, pra mim mesma.