Mar de Aparências – Capítulo 2

Capítulo 2 – Eu sou a rainha das discussões.

Acontece que eu resolvi dar uma olhada na biblioteca, encontrei outras calouras e conversamos até eu olhar pro vidro transparente, que dava pra fora do campus, e ver que já era noite.

Subi correndo pro quarto, mas já era tarde demais: quando vi um bilhete em cima da minha cama, suspirei, sabendo que Tina e Beckie já haviam partido pra festa.

“Estou saindo! Já imaginava que você iria furar.. Tô de celular, mas não me ligue. Beijinhos, B e T”.

Pelo menos eu não precisarei ser obrigada a beber.

Resolvi terminar de desfazer minha mala, peguei um porta retrato que tinha eu, mamãe e papai num restaurante chique e coloquei-o na mesa de cabeceira. Acordar todos os dias vendo o sorriso de minha mãe, que infelizmente, não posso mais te-lo pessoalmente, melhoraria meu dia. Depois de afastar a nostalgia ruim, escolhi uma roupa simples e fui tomar um banho.

Tomei um banho tão quentinho – a temperatura caía bastante aqui em Bright Inn a noite – que fiquei relaxada pra deitar e tirar um cochilo.

O cochilo acabou virando um sono de 6 horas que só foi interrompido porque tinham umas pessoas no lounge fazendo um barulhão.

Dei uma arrumada no cabelo e desci – provavelmente eram minhas amigas trêbadas-.

-Vamos, Ed, aqui não é nosso dormitório.. – eu ouvi uma voz masculina que reconheci.

-Claro que é! Eu sei exatamente onde eu to. – em seguida ouvi outra voz completamente enrolada.

Continuei descendo as escadas e me coloquei no campo de visão dos dois. Afinal, o amigo –que aparentava não estar bêbado – poderia precisar da minha ajuda pra por o outro pra fora.

-Oi.. – o menino, não tao bêbado, me olhou, assustado. Na hora o reconheci: era ele o da fila de hoje cedo. – Desculpe se a gente te acordou, ele entrou aqui tão depressa que eu nem vi..

-Tudo bem. Precisam de ajuda?

O tao bêbado sentou na poltrona e apagou.

Jesus.

-É. Não. Vou chamar meu outro companheiro de quarto. – tirou o celular do bolso e começou a digitar. – Eu não bebo e quando vou pra festa com esses caras sou sempre a babá.

Não bebe? Até parece.

Deve ta falando isso pra me chamar atenção.

-Ah. Que droga isso. Então, tá, vou subir..

Mas antes que eu desse as costas pra ele, ele disse:

-Espera.. Voce é aquela menina que encontrei na visita guiada hoje cedo, não?

-Sim, sou eu mesma.

-Ah, sim. Sou Theo, prazer. – Sorriu. Ele até que não era tão metidinho quanto parece..

-Astrid.

– Então, meu amigo tá aqui na porta, pra levar esse bebezão pro dormitório certo. Me ajuda a levar ele pra fora, por favor?

-Sim, claro.

Aproximei-me dos dois e enquanto eu peguei um braço do garoto e joguei nos meus ombros, Theo fez o mesmo e abraçou ele pela cintura, para endireitar seu corpo.

Fomos até o lado de fora de meu dormitório e lá tinha um rapaz alto, de pele negra, careca, muito bonito também.

-Eei.. – ele não entendeu muito ao me ver.

-Oi, sou Astrid, eu só vim ajudar mesmo. –ri, sem graça.

-Giovani. E desculpe pelo bebezão.

Entao esse era o apelido dele mesmo?

-Tudo bem. Espero que ele fique bem amanha.

-E não vai nem lembrar de nada disso. – Theo disse, rindo.

Theo entregou o rapaz a Giovani, que rapidamente pegou-o no colo (sim, no colo!) com seus braços gigantes e saiu andando, e continuou ali, sem saber o que dizer.

-Seu amigo acabou com sua festa, né?– perguntei, pra matar aquele silencio constrangedor.

-Na verdade, eu só apareci lá pra ajudar. Não curto muito essas comemorações de início de semestre. Dá sempre muita confusão.

-Percebi. – ri, baixinho.

-E você, por que não foi? – perguntou, colocando as mãos nos bolsos.

-Dormi. – sorri pra ele, sem graça. – Ia com duas amigas, mas perdi a hora..

-Ah. Entendi. Deu pra notar que não fazia muita questão de ir, também, né?

-Com certeza.

Passaram duas meninas por nós dois uma se jogando no braço da outra, tentando se segurar, rindo pra cacete… completamente bêbadas.

Ouvi Theo bufar.

-Que foi? – franzi o cenho.

-Feião essas meninas, né?

-Como assim?

-Enchendo a cara, ficando louca. Acho isso terrível.

Dei uma risada que mais saiu como uma forma de escárnio, que ironia.

Que machista.

-Homem pode? Seu amigo, há alguns minutos atrás, era engraçadão?

-Ah, de homem você já espera isso, ué. Mulher é mais delicadinha, não tem que se prestar a essas situações.

-Você disse delicadinha? – arregacei as mangas do casaco que eu estava, mostrando um braço meu fechado em tatuagem, e outro, com um ou dos desenhos.

Theo arregalou os olhos, chocado.

Provavelmente ele não tinha visto hoje cedo, quando nos encontramos na visita guiada, porque eu estava com uma blusa manga ¾, escondendo boa parte delas.

-Isso é machismo, Theo. Não é legal. Mulher não é ‘delicadinha’. Bom, nem todas. Eu bebo. Eu encho a cara, e sim, fico que nem seu amigo. Isso não é motivo pra desgostar de alguém. Mas já o machismo…

Dei de ombros, dando as costas pra ele e voltando pra dentro do meu dormitório, deixando-o sem palavras. Comigo não vai ter essa de falar um tipo de merda desses e achar que eu vou balançar a cabeça e concordar, só pra não arrumar discussão. Eu sou a rainha das discussões.

Cerca de uma hora depois, as meninas voltaram da festa, completamente loucas, as ajudei a deitar, tirar sapatos, etc, e deitei-me também.

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