Quantos autores negros tem na sua estante?

Esses dias vi um vídeo interessante no Instagram, uma crítica a quem fala: “mas eu não leio por causa da cor da pele de quem escreveu o livro”, e a pessoa rebatia: quantos autores negros tem na sua estante?Se a maioria for brancos, sinto-lhe informar que essa declaração não é válida. Foi quando eu parei pra pensar: quantos autores negros tem na minha estante?!

Eu nunca me liguei em nomes de autores, sempre comprei livros pela capa (péssimo, eu sei) e pela sinopse: se eu gostava, comprava. Porém, recentemente comecei a fazer diferente: ao comprar um livro e produzir uma resenha dele, comecei a escrever um pouco sobre o autor na resenha, porque afinal, era o momento perfeito para eu descobrir quem era aquele autor que tinha escrito aquele material maravilhoso que eu havia acabado de ler, e também, acabava justificando bastante coisa sobre o livro e os personagens.

Recentemente, com discussões sobre racismo tomando nossas redes (ainda bem, porque é um assunto que precisamos debater todos os dias), eu comecei a me questionar isso. Tem um exercício mental que aprendi a fazer e que levo comigo para todos os locais que vou, que é observar o lugar que eu estou (seja restaurante, shopping, aonde for), e contar quantos negros tem ali comigo. Isso já diz muito sobre o ambiente de trabalho, sobre oportunidades, e é claro, sobre racismo.

Mas algo que eu ainda não havia me tocado, era: e quanto sobre esse assunto eu ando consumindo?

Quantos autores negros tem na minha estante, quantos personagens negros (ou simplesmente influencers) eu sigo nas minhas redes sociais? Por que bem, não faz sentido vez ou outra repostar um post maneiro falando sobre racismo, ou sobre um caso de racismo e como ele foi revertido, se eu não procuro saber sobre o assunto, me cercar sobre o assunto, não concordam?!

Então, hoje, fiz questão de vir indicar uma sessão apenas disso: autores negros que merecem toda e qualquer atenção possível.

Depois vocês me contam aqui nos comentários se curtiram/conhecem algum desses materiais, combinado?!

As indicações e as sinopses foram tiradas do site novaescola.org.

1. Quando me descobri negra, de Bianca Santana (Editora SESI-SP)Descobri Bianca Santana quando ela já havia adquirido notoriedade o suficiente para ser uma das convidadas da mesa de debate com Angela Davis, quando a autora veio ao Brasil em 2019. Por coincidência (ou não), algumas semanas depois, um colega de NOVA ESCOLA colocou na minha mesa esse mesmo livro que eu havia ouvido ela mencionar no palco, dizendo que eu ia amar. E de fato eu amei. Bianca transforma experiências pessoais ou de terceiros (mulheres e homens) negros no processo de autodescobrimento em crônicas curtas e ágeis. O movimento de descoberta da própria cor pode ser doloroso, marcado por questões de racismo estrutural, velado, sutil, desses que você só entende o que aconteceu depois que passou. Que bom que outras pessoas podem contar com o apoio e as reflexões compartilhadas por Bianca Santana a partir de agora.

2. O sol na cabeça, de Geovani Martins (Companhia das Letras)O jovem escritor carioca escreve, nos 13 contos de O sol na cabeça, sobre a infância e a adolescência de crianças e jovens moradores da favela ou da zona norte carioca (em bairros bem distantes da praia). A convivência com a violência policial e a brutalidade do sistema, o tráfico e o consumo de drogas marcam os dias dos personagens retratados, muitas vezes tentando apenas viver um dia comum. Eu, que sou de São Paulo, aprendi muito sobre a dinâmica urbana do Rio de Janeiro (pela qual tenho um carinho imenso).

3. O ódio que você semeia, de Angie Thomas (Editora HarperCollins)Um dos meus livros preferidos da vida inteira é um romance young adult, ou jovem adulto, como dizemos em português. O ódio que você semeia é relatado em primeira pessoa por Starr, uma jovem negra que vive entre dois mundos: o dos ricos, de maioria branca, onde estuda; e o da classe média-baixa, de maioria negra, onde mora. Uma tragédia é o acontecimento que dá o pontapé para a vida de Starr virar de ponta-cabeça. Ela é testemunha do assassinato de seu melhor amigo, Khalil, e a partir daí precisa encarar de frente o racismo que existe na polícia, na sociedade, e também nas pessoas queridas. O livro se tornou filme em 2018.

4. Reservado, de Alexandre Ribeiro (Editora LiteraRUA)Este livro foi um presente. Literalmente, por ter sido de fato um presente de um querido amigo com quem trabalhei aqui em NOVA ESCOLA, e figurativamente também. A obra conta a história de João Victor, um menino imaginativo, quieto, morador da periferia e “da cor do talvez”. O título do livro vem de uma de suas brincadeiras de imaginação preferidas: pensar sobre o destino dos ônibus que dizem em seus letreiros “RESERVADO”, mas também pode trazer reflexões sobre o futuro. O que ele reserva para João Victor, que cresce tentando se desviar da violência do entorno e buscando refúgio em seus cadernos? O que ele reserva para outros meninos como João Victor na nossa sociedade?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *