Roommate – 18

Acordei com minha cabeça latejando e sentindo algo gelado em meu rosto.

Abri um olho devagar e com muita dificuldade, ja que por instinto, o outro tentou se abrir também e uma dor insuportável se instalou naquela regiao.

Eu estava deitada no sofá. Noah estava sentado ao meu lado, vendo TV.

-Noah. – eu disse, com uma voz fraca. Ele na hora se virou pra mim, preocupado, mas parecia muito estressado. -Graças a Deus. Se voce nao acordasse, eu ia te levar pro hospital.

-Que? – eu tentei me sentar, mas estava tudo rodando. – depois do fora que você me deu?

-Eu que te pergunto, Alice. Que porra foi aquela que aconteceu? – ele ficou de pe, de braços cruzados, me olhando. -Me desculpa. – eu disse, com a voz tremula. Nao é hora de chorar, Alice.

– Eu estava com Erik. Thomas estava bravo porque eu estava com Erik e é como se Thomas o conhecesse… eu nao entendi nada. De repente, Thomas surgiu aqui e começaram a discutir… eu tentei ajudar, e ganhei isso. – apontei pro meu olho.

-Voce quer ir no hospital? Ou na delegacia? Franzi o cenho, olhando pra Noah. Delegacia? Foi sem querer, nao foi? Que porra que aconteceu, eu me pergunto agora?!

-Voce e Erik estao juntos, Alice? – Noah me olhou, com cara de nojo.

-Ué..? – eu estava confusa. Qual o problema? – a gente fica, né. As vezes. Noah pareceu completamente indignado com a situação.

Mas de repente, pareceu se recuperar por um minuto e perguntou:

-E Thomas?

-Ele está com uma garota! Eu não entendi esse surto dele de ciumes.

-Ah, eu entendi muito bem. – franzi o cenho, olhando pra Noah e gemi de dor. Meu rosto estava muito dolorido.

– Voce deve ficar aí, quieta. Quer beber alguma coisa? Comer?

-Sao que horas?

-5:30 da manhã. E ele estava acordado, me ajudando?

-Voce não deveria estar acordado até agora.

-Ah, nao? E quem iria te socorrer? Quem iria apartar aqueles dois idiotas brigando na portaria do prédio e chamando atenção de tudo quanto é vizinho, no meio da madrugada? Porra, Alice! Presta bem atenção no que voce tá fazendo! Voce deveria escolher melhor suas companhias.

E saiu da sala, indo pro seu quarto e fechando a porta. Suspirei, sozinha. Eu precisava encontrar Erik e sentar pra conversar com ele de verdade.

Quando acordei já passava de meio dia. Eu sentia dor de cabeça, meu corpo mole, mas nada comparado a ressaca moral que batia em mim.

Mas tomei coragem, mandei uma mensagem para Jess contando a história toda que rolou aqui ontem, tomei um longo banho e fui resolver minha vida. Eu não sabia deixar algo mal resolvido. Não poderia.

Cheguei no prédio de Erik e o porteiro me deixou subir sem maiores problemas, ainda mais depois de ter me recebido tão bem desde a última vez em que estive aqui. Ao chegar no andar de Erik, eu já sentia que tinha algo errado: eu conseguia ouvir berros masculinos saindo de uma porta no final do corredor: que era justamente na direção em que eu estava indo.

Uma angústia bizarra começava a se formar dentro de mim. A porta de Erik estava entreaberta e invés de dar de cara na porta e chegar abrindo, fiz algo melhor: me estreitei na parede, no corredor ainda, para ouvir e entender o que é que estava acontecendo em seu apartamento. Depois de longos minutos de silêncio, ouvi a voz do Noah, fazendo meu coração acelerar:

-Você precisa falar pra ela. Nenhuma das duas merece essa nojeira toda que você fez, Erik. Você traía Cristal dessa forma?

-Não, óbvio que não. – Erik logo respondeu. – Com Alice foi diferente, foi instantâneo nossa química, e… Eu e Cristal não estamos muito bem. Ela viajou e a gente só briga desde então.

-Mas vocês ainda estão juntos? – Noah disse mais afirmando que negando. Silêncio. -Porra, Erik! Você é nojento.

-Quando eu me dei conta, já era tarde demais…

-Não era, não. Você podia ter contado a verdade. Pelo menos, pra uma delas. Você é um imbecil! Eu deduzi que com a viagem de Cristal vocês tinham terminado, e você estava conhecendo Alice melhor, bem, não teria problema, não é?!

-Eu errei, cara, eu errei…

Antes que eu pudesse ouvir mais daquela baboseira toda, entrei no apartamento com um rompante, dizendo:

-Você errou pra caralho, Erik. – olhei pra ele, decepcionada, e com o coração acelerado pra caramba.- E você, mais ainda. -olhei pra Noah, com olhar de desgosto. Erik tinha um roxo enorme no rosto e parecia novo, como se tivesse sido feito há poucos minutos antes d’eu chegar. Certamente ele e Noah se envolveram em mais uma briga.

Mas eu não me importava.

Chega de mais drama.

Eu, definitivamente, não precisava disso. Noah ficou com os olhos arregalados por uns segundos, mas não disse nada. Foi o suficiente: dei as costas para os dois e desci no elevador já mandando mensagem para Jess, perguntando se poderia ficar com ela até o fim daquele final de semana do terror.

Cheguei na casa dela, chorando de nervoso.

-Que diabos foi isso, garota?- Jess não estava entendendo nada. Expliquei, meio enrolada, tudo a ela, e ela parecia mais perplexa que eu. Sua resposta foi ir até sua cozinha e buscar um copo de água pra mim. -Tipo, vocês não estavam tendo algo sério, né, mas…

-Jess, ele namora! Já imaginou? A namorada dele quando descobrir? Que nojo eu to sentindo de mim.

-Isso não é culpa sua, Alice. Pode parar. E “se” a namorada dele descobrir, né?! Ele não deve contar nada a ela.

Um insight veio na minha cabeça: era por isso que o porteiro havia me recebido tão bem naquele dia! Ele provavelmente estava me confundindo com a namorada de Erik. Meu Deus!

-Ele disse que eles não estavam bem, estavam brigando mas…

-Nada justifica uma traição, Alice. Nada. E você está tão mal assim justamente por isso, né?! Por não aceitar estar na pele dessa pessoa que “traiu”. Mas não foi você quem traiu.

Depois de alguns soluços meus em silêncio, assentindo com a cabeça, Jess perguntou:

-Noah sabia? -Parecia que não. Mas tipo, ele sabia que eu estava pra cima e pra baixo com Erik. Se eles são amigos, porque não foi perguntar a Erik se ele ainda namorava, se já tinha terminado? Isso não faz sentido.

-Talvez ele estivesse torcendo pelo melhor…

-E como que Thomas sabia disso tudo? Isso que não estou entendendo. – apoiei meus cotovelos em meus joelhos e me inclinei pra frente, abaixando a cabeça. – minha cabeça dói tanto…

-Ei, ei. Fique calma. – Jess chegou perto de mim. – Seu olho ainda está bem inchado daquele imbecil. Deita um pouco, relaxa. Vou fazer um almoço gostoso pra gente, você passa a tarde aqui, o final de semana aqui, não tem problema. E Alice, se quer saber, eu acho que você acabou se apegando e se sentindo muito confortável com Noah. Lembra que seu plano era se formar, arrumar um bom emprego e então se mudar? Esse ainda é seu objetivo? Você ainda está correndo atrás disso?! O semestre terminava em poucas semanas. Eu ainda tinha uma tonelada de trabalhos para entregar… de fato, eu havia perdido completamente meu objetivo por causa de um cara. Um não, três, né?! E por mais que eu estivesse dizendo a mim mesma que não iria me apegar, que não queria nada sério… acabei nessa confusão toda.

Deitei no sofá da casa de minha amiga, pensando. Tudo ficando cada vez mais claro.

“Me desculpa. Eu não sabia. Eu juro que eu não sabia. Eu e Erik tocamos na mesma banda, somos amigos, mas sabe, não somos íntimos. Não somos de conversar. Eu vi vocês dois saindo, no começo achei que fosse só amizade, e depois quando vi que parecia algo a mais, nós dois estávamos nos envolvendo, também. E como ficaria, como pareceria, eu ficar mandando mensagem pro cara, pra me certificar de que ele estava solteiro e de que vocês dois estavam fazendo algo ok, sem problemas?! Me entende? Eu não sabia, Alice. Me desculpa. Se você preferir, volta pra casa e a gente encerra isso. Eu não quero que fique um clima, ou que você tenha uma visão errada de mim. É isso. A gente pode volta a ser só roommates. Volta pra casa?”

Acordei com esse textão de Noah, no domingo de manhã.

Que bagunça que estava acontecendo.

E, infelizmente, ficar longe não fará as coisas se resolverem automaticamente.

Não, não vai.

Jess dormia tão profundamente que não quis acorda-la, e como era bem cedo, deixei um sms pra ela, avisando que iria voltar pra casa e que estava tudo bem, e agradecendo por ter me deixado ficar um pouco ali, e voltei pra casa.

Ao chegar no apartamento, encontrei Noah deitado na sala, dormindo só de cueca.

Encostada na sua mão, no chão, uma garrafa de vinho vazia. Eu poderia ficar horas ali admirando aquela cena… Mas a realidade não era bem essa.

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