• A Estagiária – 23

    Eram tres da tarde quando Ariel chegou, me chamando pra tomar um café com ele na rua. Queria era fofocar, isso sim, mas aceitei de bom grado. 
    -E aí, me conta.
    -Jesus, vai ficar todo mundo me fazendo essa pergunta hoje? – revirei os olhos, pedindo um salgado depois disso. 
    -Foi mal. Só queria saber se ele disse algo. 
    -Disse nada, Ariel. Rolou nada. Aconteceu nada. 
    -Que merda. – suspirou. – eu shippo voces.
    -Sem essa! Pode parar. Eu ja sou confusa o suficiente pra me meter com mais gente assim. 
    -Acho que voce deveria dar uma dura nele.
    -Como assim?
    -Sabe, chegar e “ow, qual é? Vai rola uns beijo ou o que?” – gargalhei assim que ele me imitou, tentando ser sedutor. – To falando serio, menina!
    -Vou pensar nisso. Mas sei la, tenho medo dele ficar tipo “do que que voce ta falando?”. 
    -AAAh mas ele vai saber bem do que que voce ta falando. – Ariel riu, piscando pra mim. – Ele ta doidinho por voce, só nao quer dar o braço a torcer.
    -Será?
    -Quer apostar?
    -Agora. – apertamos as maos, como num acordo. – cem pratas. 
    -Uau, a menina aposta alto! – ele riu, surpreso. – Cem pratas entao. 

    Sexta passei o dia todo sentada, apenas reenviando emails para Thomas e me certificando de que seus próximos eventos iriam acontecer, que estavam todos confirmados. 
    Na hora do almoço, nem precisei olhar pra trás pra saber que era ele chegando no escritório: o cheiro de seu 212 veio até mim antes.
    -Boa tarde, pessoal. Desculpem só aparecer essa hora, tive um compromisso. – ele disse pra todos que estavam na sala. Antes de entrar na sua propria, ele parou ao meu lado, dizendo – Voce ja terminou o que precisava fazer?
    -Sim, boa parte, mas está na hora do meu almoço.. 
    -Eu ia justamente perguntar se voce gostaria de almoçar comigo. 
    -Eu nao sei se..
    -É por minha conta, Hanna. – ele falou, revirando os olhos.
    -Ta bem entao.
    -Me encontre la embaixo em 5.
    -OK. 
    Sorri alegremente. Ia comer bem e ainda ia ganhar umas cantadas, eventualmente, como sempre.Assim que ele saiu do meu lado e entrou na sua sala, olhei pra Ariel e ele estava me olhando e sorrindo, com a sobrancelha erguida, como se tivesse dizendo: “nao te avisei?”. 

    Entrei no carro com Thomas e minutos depois, já me sentia embriagada com o cheiro de perfume e um pouco sem graça de só ter nós dois ali. 

    -Vamos pro Otto’s, que é aqui perto. Comida japonesa, voce gosta, né?

  • A Estagiária – 22

    Acordei por volta de 13h da tarde, com meu celular tocando. 
    Mal consegui abrir os olhos, só tateei até acha-lo perto de mim e atendi com um murmurio. 
    -Hanna? Hanna, é o Thomas! Voce precisa vir pra empresa ainda hoje, preciso de sua ajuda. E se possivel, queria que viesse já. 
    -Ta. – desliguei o telefone na sua cara mesmo e corri pra cozinha, pra beber agua.
    Parecia que toda a agua do meu corpo havia sido sugada. Sim, a famosa ressaca. Puta merda.
    E ainda vou precisar trabalhar. 
    Me enfiei debaixo de um chuveiro com agua gelada, pra acordar, e depois, pus uma jeans e um casaco de moletom gigante. Nao estava afim de me arrumar hoje.
    Fui pro trabalho hoje que nem um zumbi, me arrastando mesmo. Ao chegar la, dei de cara com o escritorio cheio e a secretária de Thomas doida atrás de mim. 
    -Ainda bem que voce chegou! – Isa disse assim que fui pro meu box. – Thomas tem uma conferencia hoje e precisa de uns documentos que estao com voce.
    -Te entrego em minutos.
    -OK. 
    Destranquei minhas gavetas, peguei o envelope com os documentos e fui até a sala de Thomas para entrega-los. 
    -Da licença, bom dia. – eu disse, após dar dois toques na porta. 
    -Oi! – ele me olhou, sorrindo. – e ai?
    -Aqui estao os documentos que voce precisava. Se eu soubesse disso, teria vindo mais cedo. Nao quis te atrasar nem nada. 
    -Nao, fica tranquila. A conferencia vai ser só a noite. – levantou-se, vindo em minha direçao. 
    Thomas pegou os papeis e ficou me olhando. 
    -Precisa de mais alguma coisa?
    -Voce está bem?
    -Ué.. sim? Por que?

    Ele me lançou aquele olhar de: “voce nao lembra o que aconteceu ontem?”.
    -Ah. Bem, eu bebo daquele jeito e fico daquele jeito. Desculpe se te dei trabalho. 
    -Voce nao precisa pedir desculpas. Foi bom. 
    -É. – eu sorri, evitando seus olhos. – bom, tenho mais coisas pra fazer ainda. 
    Saí da sala dele antes que ele pudesse puxar outro papinho. 
    Foi bom ontem, mas eu sabia a verdade: sabia que aquilo tudo era só um joguinho. 
    -E aí, o que rolou ontem? – Camille disse ao me encontrar na cozinha. Eu precisava de café, muito café pra hoje. 
    -Como assim?
    -Eu vi que Thomas te levou pra casa. 
    -Ele me deixou em casa.
    -E..? 
    -Ele me deixou em casa. – repeti, olhando-a, meio de saco cheio. 
    -Nao quis soar grossa nem nada, Hanna. Nao to te repreendendo, to te perguntando como amiga. 
    Ta, ta bom.
    -Ue, e eu te respondendo. Nada aconteceu. Eu estava mal, ele ficou preocupado d’eu voltar de taxi sozinha e fez a gentileza de me deixar na porta de meu predio. Foi só isso mesmo. 
    -E voce ta legal?
    -Aham. Só ressaca, mesmo. 
    -Ta bem, entao. Chris pediu pra voce dar um pulo na informatica, depois.
    -OK. 
    Terminei de tomar meu café e fui pro final do corredor, pra area de Chris, saber o que mais meu dia me reservava. 
    -E aí? – eu disse, chegando perto dele. 
    -Só queria saber se voce ta livre esse final de semana.
    -To sim. – ele pareceu surpreso com minha resposta.
    -Entao me liga pra gente pensar em algo pra fazer.
    -OK entao. Era só isso, mesmo? – olhei-o, rindo. 
    -Sim. Só isso. – chris me olhou, sorrindo, com sua mao apoiada na boca. 
    Balancei a cabeça, saindo dali. 

    Homens.. 

  • A Estagiária – 21

    Dancei e enchi a cara até nao poder mais, alias, até Thomas dizer que ia me levar pra casa porque “estava na hora”. 
    -Vamos, nao tem problema.
    -Mas eu moro looooonge.. – eu lembro de dizer, meio tropega, saindo do clube com ele. 
    -Nao mora nao, Hanna. – ele riu. Ele nao estava sóbrio, mas estava bem melhor que eu. 
    Thomas chamou um táxi rapidamente, me lembro de entrar nele e deitar minha cabeça no seu ombro. 
    -Que cheiro é esse? – eu falei, franzindo meu nariz e cheirando seu pescoço. 
    -Ah, é meu perfume novo. 
    -O antigo era melhor. Nao use isso de novo. – resmunguei. 
    -É? 
    -É. 
    -Voce achava meu outro perfume melhor, entao?
    -Sim, retardado. Quantas vezes vou precisar repetir? – fiz uma careta pra ele. jesus, eu precisava controlar essa minha lingua ou ia acabar falando besteira. 
    -Tudo bem. Sem problemas. 
    Começou a tocar uma musica que eu amava no taxi, e é claro que comecei a dançar, completamente dominada pelo alcool em meu sangue. 
    -Voce é muito louca, meu Deus.. – ouvi Thomas murmurar, me olhando e rindo. 
    -Voce adorouuuu que eu sei!
    -Adorei o que, Hanna?
    -Essa noite! Foi muito boa! – dei um soquinho em seu ombro, rindo. – Foi demais! 
    -Voce ama uma festa, né?
    -Ah, que saudade que eu taaava de uma festa.. eu adooooroo! – falei, dançando ainda. 
    -Foi bom. Podemos fazer isso de novo. 
    -Voce quer fazer isso de novo?
    -Com voce. 
    -Só comigo? – parei, olhando-o. 
    E foi na hora que o táxi parou na porta do meu predio. Thomas ficou me olhando e sorrindo por um minuto, mas logo se recompos e disse:
    -Ahn.. voce quer que eu suba com voce?
    -Nao, tudo bem. Só avisa meu chefe que vou chegar atrasada hoje no trabalho. – ele gargalhou quando eu o disse, saindo do carro. 
    Eram quatro da manha. 
    Nem fudendo eu iria acordar dali a 4 horas pra ir pro trabalho e ele sabia bem disso. 

  • A Estagiária – 20

    -Bom dia, queridan. – Ariel disse, chegando ao meu lado e me dando um beijo na cabeça. 
    -Bom dia, meu bem. 
    -E aí, como estamos?
    -Muito bem. Estamos muito bem. – ri, animada. – o que me conta?
    -Voce vai na festa amanha?
    -A FESTA É AMANHA? 
    Fudeu. 
    No meio da semana? Tendo que trabalhar no dia seguinte?
    -Nossa, mas voce nunca sabe de nada, Hanna, credo! Sim, é amanha! O que, voce nao tem uma roupa? – revirou os olhos, ja sabendo do bordao de toda mulher na hora de sair. 
    -Nao tenho mesmo. – ri, sem graça. – no almoço eu saio pra ver umas lojas.. 
    -Eu posso ir com voce, se quiser. Mas logo aviso: nao tenho limites e por mim, voce ia nua pra pegar de vez o nosso principe. 
    Dei um tapa em seu braço, rindo. 
    -Voce realmente nao tem limites.
    -Por que que ele nao tem limites? – Camille chegou, rindo junto com a gente.
    -Ah, ele é assim, né. – falei, meio sem graça. – precisa de ajuda pra algo?
    -Hum, só queria que voce levasse uns papeis na xerox. Tem como?
    -Claro. 

    Na hora do meu almoço, comi um sanduiche bem rapidinho com o pessoal e fui dar uma olhada nas lojas que tinha ali perto, a fim de ver se eu achava alguma roupa pra mais tarde. 
    No meio dessa correria, encontrei com Tina, minha amiga de faculdade, quando estava quase entrando em outra loja, onde vi um macaquinho florido lindo. 
    -Ei, sua puta que desaparece sempre! – ela disse assim que me viu e veio me abraçar.
    -Eu nunca tenho tempo pra nada! – ri, abraçando-a de volta. –e ai, como voce ta?
    -Bem.. Trabalhando nuns projetos, como sempre. E voce, e o novo emprego?
    -Ta maravilhoso. Fui promovida a assistente do chefe agora. – fiz uma pose, brincando. 
    -E a assistente do chefe precisa comprar roupa hoje, porque..?
    -Ah, vai ter uma festa amanha no clube que o pessoal todo vai e eu resolvi colar junto. – ela ergueu a sobrancelha, surpresa. Ela sabe que sempre foi raro eu ir pra festa com um bando de gente. – acho que vou levar aquele macaquinho ali. O que acha?
    -Experimente pra gente ver.
    Entramos na loja, pedi o menor tamanho que tinha do macaquinho e assim que experimentei, sabia: era aquele. 
    Ele tinha um decote V no meio e ficou um pouco coladinho no meu corpo. Estava perfeito pra ocasiao. 
    -Cacete! Voce tá maravilhosa! Definitivamente: é esse! – Tina disse animada, assim que eu saí do provador. 
    -Tem certeza? Nao é muito.. sei la, indecente?
    -Amiga, a indecencia ta na mente de quem a ve.. Só to vendo coisa boa aí. – nós rimos. 
    -Entao vai ser esse mesmo. 
    Enquanto eu pagava, ela se debruçou no balcao e falou baixinho: 
    -Conheço um cara que ia amar te ver nesse macaquinho, sabia?
    -Mentira?- sorri, erguendo a sobrancelha, um pouco surpresa.- Quem é o louco da vez?
    Tina tem fama de me apresentar só cara estranho. Sério. 
    -Hum.. Ele pediu pra manter em segredo absoluto. Acho que logo voce vai sacar quem é. 
    Com certeza é algum cara da faculdade que eu nao faço ideia de quem seja. Oh, Deus. 
    -Ta bem entao. –ri, saindo com ela da loja. – preciso voltar já pra empresa, ok? A gente se ve!
    -Claro, mas vamos marcar de sair mais vezes, sua louca. Ve se nao some.
    -Pode deixar, beijo!
    Atravessei algumas ruas e em minutos eu já estava na empresa. 
    Thomas tinha saído pra resolver algumas coisas, segundo sua secretaria, e eu fiquei encarregada de marcar uns compromissos pra ele, na semana seguinte. Fiquei fazendo isso até dar a minha hora e eu finalmente poder ir pra casa. 

    Quarta foi um dia meio morto na empresa, quase nao vi Thomas, porque ele teve que resolver “problemas” na casa dele, e fiquei sentada, o tempo todo, só respondendo e vendo novos emails. 
    A noite começou a correria. 
    Fui o mais rapido possivel pra casa, tomei um banho, pus meu novo macaquinho, um salto e fiz uma make bem bonita. Arrumei meu cabelo, peguei minha bolsa e chamei um táxi. 
    Ao chegar no clube, estava tocando The Chainsmokers – closer. Minha musica. 
    -Voce tá um arraso, menina! – Ariel disse, me encontrando no bar. Claro.
    -Voce achou? Brigada! Cade o resto do pessoal?
    -Bem, vi Camille conversando com Thomas ali por perto e Chris e as garotas estão dançando. Quer vir conosco?
    -Com certeza! 
    Me juntei a eles e comecei a dançar. Era tao bom estar com essa energia de novo.. 
    -Oi. – só pelo perfume que senti, sabia que era Thomas ao meu lado.
    -Oie! – dei um beijo em sua bochecha. – e aí. 
    -Voce ta linda. – sorriu, me olhando. – quer um drink?
    -Com certeza. 
    Fomos em direçao ao bar, ele pediu dois shots pra gente e disse: 
    -Quase nao te vi hoje na empresa.. 
    -É. Foi um dia morto pra mim e agitado pra voce.
    -Ta sendo ruim ser minha assistente?
    Ta sendo ruim ser  sua assistente. 
    Ops. 
    -Nao, eu gosto assim. Trabalho é bom pra ocupar a mente. 
    -Voce precisa manter sua mente ocupada? 
    -Talvez. –eu disse, rindo, antes de virar meu shot. 

    -Acho que sei como fazer isso. – ele disse me puxando pra fora dali e de volta pra onde todos estavam dançando uma eletronica muito boa. 

  • A Estagiária – 19

    -Ele é assim mesmo. Ele sempre jogou com suas empregadas, saía com uma aqui, outra ali.. Mas o negocio é que ele nao é um canalha, amiga. Ele só quer companhia, companhia de verdade. Porque ele é sozinho.  
    Eu havia chamado Ariel pra tomar um sorvete comigo, antes de ir pra casa, e estavamos sentados, conversando um pouco.
    -Imagino que ele seja sozinho..
    -Mas ele é. A gente mal tem intimidade, e onde ele me encontra, acaba começando a falar sobre a vida dele, a desabafar. Porque ele nao tem ninguem com quem fazer isso, e eu entendo. 
    -Mas isso nao justifica ele numa hora mostrar que tem interesse em mim, interesse de verdade, e na seguinte, me tratar como lixo E chamar minha amiga pra sair. 
    -É. Ele poderia ser mais espertinho quanto a isso. Mas isso significa que se ele atacasse, voce pegava?
    -Que isso! – fiquei nervosa. – claro que nao, nao! Ele é meu chefe.
    -Entao nao se sinta mal por ele jogar, meu bem. Jogue que nem ele.

    À noite, Camille me mandou uma mensagem, dizendo que Thomas a chamou pro cinema na sexta, toda feliz da vida. Coitada, mal ela sabe.. 
    Pediu dicas de roupa e esse tipo de coisa. É claro que eu a tratei normal, como se nao soubesse de nada. Só nao quero que ele a machuque. 
    No dia seguinte, cheguei mais cedo no escritório, com meu vestido tomara que caia quadriculado e um salto –nao-tao-alto-. Thomas chegou junto comigo, mal eu havia chegado e sentado para conferir emails e ele chegou. 
    -Bom dia. – ele disse assim que entrou.
    -Oi, bom dia. – eu falei, me virando. 
    Na hora, ele parou de frente a mim e ficou me olhando, surpreso. 
    -Exagerei? – olhei pro meu vestido, confusa.
    -Nao. – riu. – nao, claro que nao. Ahn…voce ja tomou café?
    -Ainda nao, por que?
    -Quer tomar comigo, rapidinho?
    Por um momento muito idiota, quase perguntei “tomar o que?”. Droga. Era dificil nao me perder naqueles olhos, naquele cheiro..
    -Eu posso fazer café aqui pra gente. E a gente come aqui. É melhor e nao vai me atrasar..
    Notei um certo desapontamento em seu semblante. 
    -Ah. Claro. Vou só por minha bolsa lá dentro e te encontro na cozinha.
    -Tudo bem, vou fazendo o café.
    Passei por ele e fui pra cozinha, onde encontrei uma bagunça de louça.
    Qual o problema dessas pessoas que amam comer, mas odeiam limpar? Que droga!
    Coloquei o pó e a agua fervente na cafeteira, arrumei a mesa pra sentarmos e comermos, e enquanto isso, comecei a lavar a louça. 
    -Voce nao foi contratada pra lavar louça, Hanna. Pode deixar isso aí. – ouvi a voz de Thom, ao entrar na cozinha.
    -Eu sei. Ta tudo bem. Nao vou conseguir comer, olhando pra essa bagunça.
    -Nao queria que sujasse seu vestido.. – ele disse atrás de mim, encostando em mim, se esticando pra pegar sua xícara no armário que tinha na minha frente. 
    Ok. Vou repetir: atrás de mim. Encostando em mim. 
    Sacaram? Ok. 
    -Ta tudo bem. – eu repeti, baixinho, tentando nao tremer. 
    Ele sugava minhas energias, ao mesmo tempo que fazia meu corpo explodir em chamas.
    Porra, que cliche. Que merda, Hanna 
    Depois que pegou sua xícara, sentou-se a mesa e enquanto eu tirava o café e servia um pouco pra mim, antes de sentar, ele perguntou: 
    -Vi voce almoçar ontem com o Chris.. Ta rolando?
    -Teria problema? – eu soltei, suave. Peguei minha xícara e o bule de café, sentei-me na mesa e o servi. 
    -Estagiário pode fazer o que quiser com estagiário. – ele falou, me olhando. – Só chefe e estagiário que é extremamente proibido. Vai contra a nossa politica. 
    Ele disse isso olhando quase que no fundo da minha alma, juro. 
    -E o que aconteceria?
    -Em qual caso?
    -Chefe e estagiário.
    -Demissão. 
    -De quem? 
    -Dos dois. 
    Ergui a sobrancelha e sorri pra ele. 
    -Bom saber.
    -Por que? Está interessada no seu chefe?
    -Que eu posso pegar o estagiário que eu quiser e nao sofrer nenhum dano por isso. 

    Thomas nao teve cara quando eu disse isso, entao, pra aliviar a situaçao, levantei-me da mesa e fui pro meu box, trabalhar.

  • A Estagiária – 18

    Depois de receber o email de Thomas e me deparar com aquele calendario cheio de coisa anotado e coisas que eu, futuramente, teria que decorar, minha vontade foi só de chorar e pedir demissao de uma vez. 
    Mas como ainda nao fui reconhecida como uma Kardashian, preciso do emprego. Eu realmente preciso do emprego.
    Entao, arrumei tudo num novo calendario, entrei em contato de uma vez com as pessoas que ele tinha compromissos futuros a fim de confirmar se eles aconteceriam e comecei a montar o novo calendario dele, quando Chris parou do meu lado. 
    -Está na hora. Vamos? – perguntou-me. 
    -Ah. –olhei pro relogio e já se passava de 12h. – vamos, claro.
    Vi que Ariel estava no box dele, mas olhando pra gente. 
    Franzi o cenho em sinal de “que foi?” e ele só riu e balançou a cabeça.
    Peguei minha bolsa e fui até a sala de Thomas. 
    -Escuta, eu já preparei tudo. Só falta montar seu novo calendario. Eu vou montar depois do almoço pra eu poder ter mais umas ideias e, quem sabe, adicionar novos compromissos que irao te favorecer, é claro. – thomas ficava me olhando, parecida todo orgulhoso, enquanto eu falava. Corei. – Vou só sair pra almoçar e daqui a pouco eu volto. Voce precisa de algo a mais?
    -Nao, nao preciso. – ele sorriu pra mim. –está perfeito desse jeito. 
    -Ok, entao. 
    Saí da sua sala e saí com Chris. 

    Chris nos levou pra um restaurante –muito fino, por sinal – que ficava ha vinte minutos dali. Fiquei nervosa, nao queria voltar atrasada sendo que tinha mil coisas pra fazer ainda, mas tudo bem. 
    Tentei ficar relaxada ao longo do almoço, só que Chris nao era muito bom de papo. Fiquei com pena dele e falei pelos cotovelos e isso talvez tenha o assustado um pouco. 
    Na hora que chegou a conta, depois de comermos, ele nao deixou que eu pagasse e fiquei aliviada, preciso admitir. Certeza que aquele almoço iria matar metade da minha mesada. 
    Cerca de 13h30, voltamos pra empresa.
    Num bad timing: na hora que Thomas ia entrar no elevador, nós saimos dele. Juntos. 
    -Ah, estava quase te ligando. –ele olhou pra nós dois, meio confuso. – demorou, huh?
    -É. Comemos num lugar diferente hoje. – Chris tomou minha frente, respondendo-o. – se nao se importa, temos coisas a fazer ainda…
    Entao ele passou por Thomas, me puxando pela mao. Dei uma olhada rapida pra trás, de “foi mal”, e 
    Thomas apenas balançou a cabeça, erguendo sua sobrancelha. 
    Ao entrar no escritorio, dei de cara com Ariel, que me chamou na cozinha só pra dizer:
    -Acho que tem alguem com ciuminho hoje.. – cantarolou. 
    -Que?
    -Thom. Ficou possesso porque voce saiu com o boy da informatica. Ele notou que voces dois tinham saído, e ainda me perguntou se voces tinham saído. Juntos. 
    -Ele foi te perguntar?
    Quem ele acha que era, pra ficar tomando conta da minha vida agora?
    -Querida, se toca né.. 
    -Nao tem nada pra eu tocar, meu bem. A nao ser no calendário que preciso fazer pra agora!Saí logo da cozinha e me sentei em frente a meu computador, pra começar a fazer minhas coisas.

    Por volta de 17h, Thomas veio avisar que nós ja podiamos sair. Ele apenas avisou na frente da sua sala, sem nem olhar na minha cara. 
    Terminei de arrumar minhas coisas, mas antes de sair, achei melhor passar na sua sala apenas para informa-lo que eu havia terminado tudo já e que amanha, eu entraria em contato com seus assessores. 
    -..entao eu te pego às 18h, pode ser? –eu o ouvi dizer, antes de entrar na sala. 
    -Sim, 18h tá ótimo. – essa era a voz da Camille. 
    Suspirei. 
    Engoli. 
    Entrei. 
    -Licença. – dei dois toques na porta e entrei, vendo os dois no centro de sua sala, bem proximos na verdade. – Thomas, só queria te dizer que seus assessores provavelmente entrarao em contato com voce amanha, entao encaminhe eles pra mim, por favor. E ah, está tudo pronto. – falei, rapidamente. Queria sair de lá o mais rapido possivel. 
    -É claro, é claro. – ele disse, ajeitando sua gravata. – obrigado, Hanna. 
    -Até amanha. 
    Saí da sala, peguei minha bolsa e quem eu encontro na porta, me esperando?

    Ariel, é claro. Com as sobrancelhas erguidas. 

  • A Estagiária – 17

    Segunda, acordei mais animada e esperançosa de que essa semana fosse melhor que meu final de semana.
    Coloquei um jeans escura, uma camisa social branca (sim! Depois de semanas trabalhando na empresa, eu resolvo vestir uma roupa mais séria) e um sweater preto, porque o ar condicionado dentro daquela sala estava sempre na temperatura mais baixa o possível. 
    Tomei um café rápido e fui pro escritório. 
    Mal entrei na sala e já pude sentir um ambiente ruim. Tinha algo rolando. As pessoas estavam correndo de um lado pro outro, preocupadas, em silencio. 
    -O que ta rolando aqui? – perguntei a Camille, assim que me sentei no meu box. 
    -Chefe tá de mal humor hoje e a gente que paga o pato. 
    Revirei os olhos. Ah, novidade. 
    Que sorte a minha ter um chefe de vinte e dois anos que nao sabe separar o que acontece fora do trabalho, pra o que acontece dentro dele.
    Olhei pra tela do meu computador e tinham vários post-its, de coisas que eu deveria fazer.
    -Hanna, o Sr.Benjamin está pedindo que voce vá pra sala dele por um momentinho. – Isabella, a secretaria de Thom, veio me informar.
    Em dias como esses, uma noticia dessas, fazia minhas pernas tremerem. 
    Levantei-me com certa cautela, fui até a sala dele e depois de dois toques, entrei devagarzinho.
    -Bom dia, Thomas. Posso ajuda-lo?
    Ele parou o que estava fazendo, escrevendo em algum lugar, pra me olhar por um minuto. Eu odiava aquelas olhadas dele, me sentia extremamente inferior.
    -Voce agora é minha assistente pessoal. Voce vai marcar minhas entrevistas, conferencias, reunioes com empresas.. Vou te passar por email todo o meu calendario, inclusive meu calendário pessoal, porque a porra da minha familia sempre está metida nos meus negocios e se tem um aniversário num dia que tem conferencia, isso significa que alguem vai morrer. – ele levantou-se e veio na minha direçao, dizendo com certo desgosto. – Está me entendendo, Hanna?
    -Sim, sim. Que mais eu posso fazer por voce?
    -Um café. Esse que Camille fez hoje está uma porcaria. Faça um direito. O email será enviado em instantes pra voce, com todas as informaçoes necessárias pra voce montar um novo calendário, pro mes que vem, e espero que ele já tenha todos os encontros e tudo o que eu preciso. Fui claro?
    -Sim, senhor. Licença. 
    Simplesmente abaixei a cabeça e saí daquela sala que estava com um espirito horroroso. Uma vibe ruim, mesmo.
    Fui até a cozinha, fazer o café, e enquanto o fazia, Chris apareceu. O estagiário que ficava mais na informatica. Bonitinho. Simpatiquinho. É…
    -E aí. 
    -Oie. – disse eu, com um sorrisinho no rosto, de costas pra pia e encostada nela, assim que ele chegou.
    -Dia dificil, huh?
    -Ele faz ser dificil. Nao precisava ser. – suspirei. 
    -Pode crer. Ta afim de almoçar comigo hoje? 
    Nossa. Me assustei um pouco com a indiscrição dele. 
    -Aham. 
    -Beleza. 12h eu te chamo lá. To de carro. 
    -Carro? – franzi o cenho. – temos, sei la, quarenta minutos no maximo de almoço. 
    -Dá pra se fazer muita coisa nesses quarenta minutos.
    Depois dessa fala dele, só pude imaginar nós dois transando no carro dele. 
    Parece até que sou virgem de novo.
    -Beleza. – só ri e na hora, Thomas entrou na cozinha meio puto e assim que viu nós dois ali, conversando, ele provavelmente achou que eu tava atoa, papeando.
    -Estou esperando o café, Hanna. 
    -E eu nao sou a cafeteira. Ainda nao está pronto o café. 
    -Preciso terminar de pegar umas xerox.. –Chris saiu logo de perto da gente antes que sobrasse pra ele. 
    Thomas abaixou a cabeça, meio sem graça, e se sentou na mesinha pequena que tinha ali.
    -Quer conversar? – perguntei de costas, quando eu estava ajeitando a cafeteira pra ver se fazia aquilo mais rapido.
    -Nao. 
    -Ok.. –falei baixinho. 
    Ele nao era meu coleguinha. 
    Era meu chefe. 
    Meu chefe.
    Depois de cerca de alguns minutos, a cafeteira fez um barulhinho avisando que estava pronto. Tirei-o, pus em sua xícara –claro que o chefe tinha uma xícara só dele, gente!- e o entreguei. 
    -Aqui está. Desculpe a demora. Voce quer algum biscoito.. sei la?
    Thomas olhou pra mim e riu, pegando o café. 
    -Voce nao é minha empregada.. domestica. Nao precisa ficar me oferecendo as coisas dessa forma. 
    Dei um suspiro bem alto e insatisfeito. 
    Virei-me, peguei minha xícara –claro que eu tinha uma xícara só minha, gente!- coloquei o café e fui sair da cozinha, pra começar meu trabalho, porém ele me chamou. 
    -Qu..Sim? – virei-me olhando-o.
    -Senta aqui e fica aqui comigo um pouco.
    -Eu nao sou sua empregada domestica e nem sua psicologa. Tenho trabalho a fazer agora. 
    Ergui a sobrancelha, virando-me e indo pro meu box. 
    Pode dar foras assim no chefe e nao ser demitida?

    Vamos ver até o fim do dia. 

  • A Estagiária – 16

    Cerca de dez da noite – sim, dez da noite. Chegamos ao bar por volta de 18h, e voltamos pra casa as dez- fomos pra casa.
    Graças a Deus, papai e mamae estavam dormindo. 
    -Vamos pegar um dos primeiros voos amanha, por favor. Só quero ir pra casa. – Jeremy disse, antes de entrar em seu antigo quarto.
    -Tem certeza?
    -Absoluta. 
    -Ta bem, entao. Eu te acordo. 
    -OK. Boa noite, Han. E obrigada por hoje. –sorriu, entrando. 
    -Que nada, cara. 
    Tomei um banho e assim que deitei na cama, pronta pra dormir, recebi uma mensagem de Thomas. 
    “Como foi o almoço com seus pais?”
    “Nao tao bom quanto esperado. Mas normal. E como ta ai? Nao morreu de fome ainda, pelo visto?”
    “Ha-ha, engraçadinha. Nao! Voce vai na festa de semana que vem, com o pessoal?”
    Ele falando comigo dessa forma parecia até que eramos amigos de trabalho, ou sei la. 
    Tudo menos chefe e empregada.
    “Sim! E voce?”
    “Sério? Nao achei que voce fosse do tipo que curtia festas, haha. Vou sim. Tava precisando de uma festa pra distrair a mente.”
    “É a segunda vez que voce diz pra mim que nao tenho cara de quem curte festas!”
    “Sei la. Voce é meio seria as vezes, achei que preferisse ficar em casa.”
    “Ah, ta certo. Mas a gente se ve nesse dia e lá voce me diz se ainda vou ter cara de quem curte ficar em casa, fazendo nada!”
    “Espero J” 
    Ri, desligando minha internet e indo dormir, de vez, dominada pelo cansaço e pelo alcool. 

    Acordei com meu despertador tocando as 8 da matina. 
    Puta merda. 
    Minha cabeça doía e eu só queria dormir por mais umas dez horas. Eu havia passado a semana toda correndo, de um lado para o outro na empresa feito doida. Precisava muito de um descanso. 
    Tomei um banho rapido, troquei de roupa e fui acordar meu irmao. 
    -Ei, acorda, anda. Precisamos voltar pra casa!
    -Ah. Ta. – Jer disse se sentando na cama. –Sao que horas? Que horas é nosso voo?
    -Sao oito e pouca e nosso voo é na hora que a gente chegar no aeroporto e comprar nossas passagens. 
    -Puta merda. – ele deu logo um salto da cama e foi pro banheiro. 
    Desci pra tomar cafe com meu coraçao na boca: eu nao sabia que tipo de pais eu encontraria na cozinha: pais bravos, decepcionados, tristes, indiferentes.. 
    Na verdade, nessa situaçao, nem sei qual seria pior. 
    -Oi. – falei assim que passei pela sala e vi minha mae sentada, assistindo a tv. – vou só tomar um café e vou leva-lo pra casa.
    -Seu pai saiu hoje cedo, pra caminhar. Voce sabe o porque. 
    Papai só caminhava quando ele precisava pensar. Ele dizia que os pensamentos vem, no ritmo que suas pernas se movem. 
    -OK. Tudo bem. 
    Peguei meu café na cozinha, umas torradas e me juntei a ela no sofá, por uns instantes. 
    -O que é que está acontecendo com a gente, Hanna? Nós costumavamos ser tao bons nisso.. Aí voce foi embora.. Jer foi embora.. Nos vemos voces no maximo uma vez ao mes.. É assim que vai ser nossa familia de hoje em diante?
    -Enquanto voce deixar o papai tomar decisoes sobre tudo, decisoes que poem na frente o que as pessoas pensam da nossa familia, e nao o que nós pensamos da nossa familia, parece que sim, mamae.
    -Vamos? – Jer desceu assim que eu disse. – Nao quero ficar esperando muito no aeroporto. 
    -Eu posso levar voces.. 
    -Eu to de carro. –falei, meio infeliz. Minha mae nao era a malvada da história. – prometo vir aqui mais vezes, assim que possivel. 
    -E como está o trabalho? 
    -Bom. Bem. Meu chefe é legal, o pessoal é legal. Acho que esse é pra valer.
    -Bom.. legal. Legal. Espero que continue dando tudo certo. – ela levantou pra me abraçar. – fica bem, filha. Eu amo voce.
    -Tambem amo voce, mae. Vou te esperar no carro. 
    Dei um minuto a sós pra minha mae e meu irmao, e fui ligar o carro pra esquentar. 
    Minutos depois, Jeremy entrou no carro e fomos pro aeroporto. 
    Deixei-o em casa depois de um longo abraço e mais um pedido de desculpas. Se eu nao tivesse insistido pra ele ir nesse almoço.. 

    Fui pra minha casa, tomei um banho e passei o domingo do jeito que ele rendia pra mim: deitada na cama, lendo. 

  • A Estagiária – 15

    -E aí, como eles tao? Já na menopausa? – Jer perguntou assim que entrou no carro, me fazendo rir. 
    -Ah, para, é só um almoço. E seja educado. 
    -Ah, eu serei. – revirou os olhos. Jeremy nunca teve um relacionamento muito bom com nossos pais porque eles nunca apoiaram muito bem a decisao dele: largar o colegio, escrever um livro, publicar, ficar famoso.. 
    E é claro, eles nao sabem sobre a parte dele ter um namorado. 
    -Nao acha que ta na hora de contar a eles? – eu perguntei, enquanto seguiamos pro aeroporto. 
    -Sei la. –deu de ombros. 
    Ele nunca se incomodou de contar, já que começou a namorar um cara recentemente, e nunca se importou com a opiniao de ninguem, entao.. Só nao contou pra nao correr o risco de ouvir aquilo que ele nao quer.
    Chegamos ao aeroporto, comprei nossas passagens e depois de quatro horas e meia – sim, sao quatro horas e meia de viagem da Califórnia até Nova Jersey!- chegamos no aeroporto de NJ. 
    Papai já esperava por nós.
    Tinha cerca de um mes que eu nao o via, achei ele mais velho e barrigudo, mas a saudade que eu tava dele era maior que sua barriga. 
    -Papai! – abracei-o assim que o vi. 
    -Oi minha filha! Como voce está grande! –segurou meu rosto, me olhando, como ele sempre fazia. 
    -Pois é.. 
    -Oi filhão! –ele abraçava Jer agora. – Como estao as coisas com o livro?
    -Bem. Fluindo. – Jer riu, me olhando. Papai fazia essa pergunta todas as vezes que o via. 
    -Bem, vamos pra casa. O almoço já está esperando voces ha algum tempo! 
    -Claro. – eu e Jer dissemos, mortos de fome. 

    Depois de muitos beijos e abraços de mamae, almoçamos uma deliciosa macarronada –que eu ja estava morrendo de saudade!- e sentamos na sala pra assistir TV, como sempre faziamos.
    -Olha só que pouca vergonha! Isso é coisa de outro mundo mesmo.. – papai disse assim que apareceu um casal gay numa serie que estavamos assistindo. 
    Engoli seco. 
    -Nao fale isso, querido. Eles se amam.. – mamae disse, tentando amenizar a situaçao. Ela olhou pra Jer apreensiva. Ela nao sabia de nada. “Nao sabia”. 
    -Eles sao homens, Luce! Homens! Homem tem que ficar com mulher!
    -Fala isso pro meu namorado entao, pai. – Jeremy falou, se levantando. 
    Minha mae e eu só sabiamos olhar pro rosto contorcido de meu pai. 
    -Do que que voce ta falando? 
    -Eu to namorando um cara, pai. Um homem. Um ser com um penis, que nem eu, sabe? 
    -Voce ficou doente? – papai disse, com um rosto de desgosto. 
    -Se voce chama o amor de doença.. 
    -Olha o que ele está falando, gente! – papai nos olhou, procurando ajuda. Quando viu que apenas abaixamos a cabeça, ele entendeu. – Voces ja sabiam desse absurdo? E NINGUEM ME CONTOU NADA? Mas que merd… 
    -Olha só, eu vou facilitar pra voce e vou simplesmente sair, valeu? – Jeremy disse, indo em direçao a porta. – eu to feliz e nao contei pra voce porque sabia que voce falaria justamente esse tipo de coisa. Eu to fora. Tchau mae, o almoço estava ótimo. 
    -Jeremy, meu filho, nao faça iss.. –Mamae tentou argumentar, mas ja era tarde demais. 
    Saí atrás de Jeremy, minutos depois, e o encontrei um quarteirao depois da nossa casa, entrando num bar. 
    -Era pra ele me apoiar, porra! – Jeremy socou a mesa, chamando atençao de quem estava a nossa volta.
    -Eu sei, Jer. Desculpe. Desculpe por voce ter de passar por isso. 
    -Voce nao tem culpa. Ele me faz sentir defeituoso, sabe? Porra! Que diferença faz se eu beijo na boca de um homem ou de uma mulher, pra ele? que que vai mudar, na porra da vida dele?
    -Os amigos dele dizendo que o filho dele namora um cara. – revirei os olhos. Era exatamente só com isso que papai se importava: com o que os outros pensariam de nós. Por isso fomos embora daquela casa o quanto antes. 
    -Que merda. Eu tenho nojo dele. – Jeremy chamou um garçom, depois de dizer. – tequila, por favor. 
    -Eu quero, também. – ele me olhou surpreso assim que eu pedi. – o que? Estou te apoiando aqui, mano. 

    Jeremy riu, e entao, eu soube que mais algumas doses e a gente podia voltar pra casa e esquecer tudo. 

  • A Estagiária – 14

    -Tiro a agua e ponho o molho. 
    -OK entao.
    Ele fez isso, e depois de tudo pronto, pos o miojo no prato. 
    -Nossa. Isso tá bom pra cacete! – falou, com a boca cheia. – serio, Hanna. Muito obrigado!
    -Que nada. Fico feliz por ter gostado e por ter te ajudado, também. 
    -Ahh. – revirou os olhos. 
    -Que foi?
    -Voce ja voltou com a sua postura “de nada, chefe. Disponha”. Volta pra menina que caçava vagalumes, por favor?
    -Ta bem. Foi mal. – sorri. – agora.. eu preciso ir! Amanha vou cedo pra minha mae. Quero aproveitar o final de semana com meus pais. 
    -Claro. Se precisar de alguma coisa, só me falar. Boa noite, Hanna Hunter. (fez um trocadilho porque Hunter em inglês é Caçador(a) )
    Ri, com aquele apelidinho bobo que ele havia dito. 
    -Boa noite, Thom. 
    Desliguei o Facetime com um sorriso pra ele e fui pro meu quarto, me jogando na cama e apagando logo em seguida. 

    Nao sei porque, mas acordei animada no dia seguinte.
    Mandei uma mensagem pra minha mae, perguntando se podia passar lá pra almoçar com ela, e felizmente, ela logo respondeu: 
    “Venha sim!!!! Eu ja ia chamar voce e seu irmão pra ficarem aqui conosco mesmo.. Estou morrendo de saudades!!!!!”
    Ri, com seu jeitinho de sempre mandar muitas exclamações nas mensagens. 
    Arrumei minha casa, tomei um banho e fui me arrumar pra ir pra casa dela. 
    To indo pro pai e pra mae. Quer carona?” – mandei uma mensagem pra Jeremy. Ele morava perto de mim mas ainda nao tinha carro.
    Com certeza! Me pega em vinte minutos!”. Revirei os olhos assim que vi essa mensagem dele. Eu sempre tinha que esperar por ele, ja estava até acostumada.
    OK. Mas nao se atrase.”
    Coloquei uma leggin preta, um croped florido, azul marido com flores rosas, uma sandalinha e peguei minha bolsa. 
    Pra matar o tempo, fui dar uma olhada na grade de eventos da empresa na semana que vem. Ver se tinha algum evento interessante no site, sei la, né. 
    Enquanto eu fazia isso, recebi uma mensagem de Camille, dizendo: 
    Ei, novata! Vai ter uma festa no clube semana que vem e o pessoal da empresa tá se animando de ir.. Topa? To te chamando já, porque um amigo meu vai passar lá segunda, com os ingressos, posso pedir a ele pra separar um pra voce..”
    Sorri, satisfeita. Era tudo o que eu queria. 
    Claro! Super topo!”
    To pronto já!” – por um milagre divino, meu irmão me mandou uma mensagem antes até do que eu esperava, avisando pra eu ir busca-lo. 

    Peguei minhas coisas, minha chave e fui.